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IGFEJ

Em entrevista: Vitor Carvalho Araújo, arquiteto

O Atelier Vítor Carvalho Araújo foi selecionado pelo IGFEJ para projetar a obra de requalificação e reabilitação geral do edifício do Supremo Tribunal de Justiça, integrado na Praça do Comércio, conjunto patrimonial classificado como Monumento Nacional. 

O IGFEJ foi ter com o arquiteto que dá nome ao Atelier e dá-lhe a conhecer, nesta entrevista, a sua visão da obra, os objetivos e as dificuldades inerentes a uma empreitada desta envergadura. 

 

O que o levou a querer participar neste projeto?

Este foi um desafio que foi colocado ao nosso gabinete, porque nós já tínhamos elaborado projetos de obra nova associados a projetos de reabilitação. E a obra ou projeto de reabilitação é um projeto diferenciado. Tem sempre desafios surpreendentes, muitas vezes inesperados. E tínhamos feito algumas obras nesse âmbito. No entanto, na Praça do Comércio e num edifício desta natureza, ainda não. Daí termos reconhecido de que se tratava de um desafio com uma dimensão que justificava investirmos nesta investigação. Investigar, estudar e apresentar uma proposta – que foi o que aconteceu - inclusive com uma particularidade: a nossa proposta, contestou o programa que nos foi dado e penso que isso terá tido resultado na apreciação. O projeto tentou que não se tratasse apenas de cumprir o programa funcional, mas de conjugar esse programa funcional com aquilo que o edifício é no seu todo. E esta é também uma outra particularidade, porque, hoje, o edifício hoje pode ser visto como um todo, o que não acontecia antes da intervenção. Nós olhamos para esta ala na Praça do Comércio e percebemos que se trata de um edifício que é uma parte de um conjunto. Mas este edifício era composto por três edifícios! Portanto, um dos desafios era que projeto demonstrasse a capacidade de unificar os três edifícios. E foi essa uma das interpretações do programa que nos foi dado, propondo alternativas a determinadas orientações. Eu penso que essa “provocação” feita ao programa acabou por resultar porque, no fim, há uma clarificação dos espaços. Clarificação essa que vai ao encontro do desempenho funcional que o IGFEJ pretendia para a nova instalação do Supremo Tribunal de Justiça.

 

Onde se inspirou para projetar esta obra?

É uma questão fundamental aqui, porque os arquitetos tem aquele desejo permanente da originalidade do projeto, da diferença e da distinção. E aqui fica verdadeiramente claro que o que é original é a origem. Aliás etimologicamente estamos no mesmo sítio. É a origem do edifício que define a maneira como um projeto consegue ser original relativamente à sua reinvenção, à criação de uma segunda ou terceira vidas, que ele poderia ter aqui. Portanto, a primeira inspiração é o próprio edifício. Estudamos e relemos animadamente a obra do Professor José Augusto França sobre a reconstrução de Lisboa, com a qual já me tinha encontrado por razões académias e que voltei a estudar, agora por questões de projeto direto: a investigação que o professor faz sobre a construção pombalina, muito particularmente sobre os edifícios da Praça do Comércio, sobre o sistema construtivo. O projeto original, até mais do que outros projetos da reconstrução de Lisboa, foi feito de uma forma tripartida: Eugénio dos Santos, Carlos Mardel e Manuel da Maia participaram ativamente neste projeto, cada um com a sua intervenção. Nós consultamos esses documentos e percebemos que havia na sua origem fatores que nos permitiam usar o edifício como principal fonte de inspiração. Apesar de tudo, como o edifício estava numa situação muito adulterada relativamente a essa situação original, havia necessidade de propor um modo de intervenção, uma razão técnica para intervenção construtiva. Também precisávamos de uma imagem de conjunto, uma imagem coerente e fomos procurar inspiração em obras de natureza idêntica. Lembro-me particularmente de termos estudado os projetos de obra do Museu do Chiado, de Jean-Michel Wilmotte, que é um projeto já com ‘um par de anos’ (1988-94), mas feito num edifício com a mesma natureza construtiva e o projeto aqui ao lado, do arquiteto Gonçalo Byrne e do arquiteto - e meu amigo - João Pedro Falcão de Campos para o Banco de Portugal. O projeto do Museu do Dinheiro, a antiga Igreja de São Julião, que é um projeto com uma reflexão concetual e uma atitude técnica que muito nos inspiraram.

 

 

"É a origem de um edifício que define a forma como um projeto consegue ser original quanto à sua reinvenção numa segunda ou terceira vida."

 

O facto de se tratar de um edifício classificado como monumento nacional e de se integrar na baixa pombalina trouxe alguma complexidade à intervenção? Quais foram os principais desafios?

Essa é uma condicionante fortíssima, uma condicionante que ‘pesa sobre os ombros’. É um monumento nacional classificado em 1910, um dos primeiros diplomas de classificação nacional. A classificação refere-se ao conjunto da Praça do Comércio e, portanto, a intervenção numa parte desse conjunto tem que ter a consciência, a noção clara, de que o projeto não está num processo afirmativo, está num processo de integração, num processo de recuperação da imagem original. Lembro-me de ter consultado na altura os textos que o arquiteto Siza Vieira escreveu sobre o plano de recuperação do Chiado em que ele diz que ‘há ocasiões em que o projeto e o arquiteto têm que optar pelo silêncio’. São as características arquitetónicas desse conjunto que ditam as regras e não uma vontade qualquer, ou um desejo de um arquiteto. Aqui temos uma disciplina que é legal, regulamentada, que decorre da classificação patrimonial. Classificação patrimonial máxima -   monumento nacional - com restrições muito precisas. Depois, esse diploma legal foi reforçado com as definições do Plano de Pormenor da Baixa Pombalina, de iniciativa municipal, que também identificam o tipo e os limites da intervenção neste edifício.

Mas a situação com que nos deparamos era de tal maneira caracterizada pela adulteração, pela sobreposição, pela sedimentação de intervenções sucessivas, que aquilo que escrevi no texto da memória descritiva da proposta foi a intenção da releitura do património, a necessidade de voltar ao principio. Depurar e devolver ao edifício a estrutura espacial original.

 

E como conseguiu conciliar com os objetivos traçados pelo IGFEJ para esta empreitada?

Tenho que reconhecer que essa é uma parte difícil do trabalho. Mas também, se fosse fácil, não tinha graça nenhuma! Essa dificuldade é uma dificuldade muito presente e muito consciente no projeto, sobretudo na fase inicial: o estudo prévio, quando estamos a definir as opções mais significativas da intervenção. E as dificuldades vêm, por uma lado, daquela sobreposição de atuações que o edifício tinha tido ao longo de décadas. Era uma labirinto absoluto, muito compartimentado. Os espaços estavam subdivididos de modos distintos, porque numa década faz-se de uma maneira, noutra década faz-se de outra e portanto havia aqui uma sobreposição de intervenções que escondiam e tornavam o edifício quase ilegível. Tivemos muita dificuldade no princípio de perceber o que é que se ligava a quê!

 

Tiveram que fazer muitas demolições de intervenções sucessivas para chegarem ao edifício original?

Esta imagem que nós temos aqui ao fundo com esta profundidade - o conjunto das abóbadas de arestas que formam os tetos - não existia. Era totalmente ilegível. Eu tenho a sensação que algumas pessoas que saíram daqui para as instalações temporárias do Supremo Tribunal de Justiça nas Escadinhas de São Crispim - e não tenham acompanhado a obra - que, no dia que cá voltarem, vão ficar completamente surpreendidas com a dimensão do espaço. Esse foi o objetivo que quisemos dar ao projeto, o da transparência, da simplificação. Tornar mais evidente aquilo que é evidente no sistema construtivo, que tem uma métrica muito própria, uma espacialidade contínua. E tem esta transparência e esta luminosidade, a partir do Tejo e da Praça do Comércio. Estas são situações que o projeto precisava de saber trazer cá para dentro.

Uma outra dificuldade muito significativa do ponto de vista construtivo e operativo tem a ver com o facto de o Supremo Tribunal Supremo de Justiça ocupar originalmente apenas a parte central deste corpo da Praça do Comércio. No frente virada para a Rua Augusta existia uma farmácia e no lado da Rua da Prata existiam as instalações da Cruz Vermelha Portuguesa, que ocupava também uma área significativa. Três edifícios autónomos, fisicamente separados, que o projeto propôs unir e transformar num elemento único.

A conjugação destas condicionantes construtivas com o programa funcional foi um desafio difícil, e por isso, muito interessante. O programa funcional que nos foi dado corresponde a uma listagem de espaços com as respetivas áreas e interdependências funcionais. Traduzir isso espacialmente, com estas limitações, foi muito desafiante!

Eu penso que o resultado - já posso afirmá-lo porque o projeto já o definiu -, assegura essa continuidade, essa ligação, essa natural correspondência entre os três corpos, que inicialmente estavam separados. Isto ao nível horizontal.

Numa leitura vertical, temos também uma estratificação de vários níveis. Estamos sobretudo concentrados nas definições do projeto para o piso térreo e a sobreloja, que corresponde à altura do pórtico da arcada que caracteriza toda a Praça. Os pisos acima deste têm intervenções mais pontuais e aí talvez ainda não se tenha atingido a unidade que se pretendia. Mas é por uma razão metodológica de gestão de obra: o IGFEJ tem necessidade de fazer a obra por partes, em função do modo como a intervenção foi programada.

 

"...haverá pessoas que possam ter saído daqui para as Escadinhas de São Crispim, no arranque da obra, e que no dia que voltarem, vão ficar completamente surpreendidas pela dimensão do espaço."

 

Um projeto desta natureza acarreta sempre algumas alterações durante a sua execução. Quais os problemas que surgiram e de que forma se têm conseguido contornar?

Há algumas. Uma está relacionada com o facto de, à data da elaboração da nossa proposta, não termos tido acesso a determinadas áreas do edifício. O Supremo Tribunal de Justiça estava aqui a trabalhar em pleno e portanto não tivemos acesso a espaços que estavam escondidos atrás de segundas paredes e de tetos falsos, o que não nos permitiu aceder a algumas informações sobre as componentes construtivas do edifício. É assim mesmo em qualquer obra de reabilitação. Isto acontece muitas vezes e o projeto teve de procurar antecipar algumas situações e definir soluções em função desse conhecimento condicionado.

Por outro lado, eu diria que o número de alterações ao projeto ou de modificações à estratégia original é absolutamente reduzido, é mínimo. O projeto procurou antecipar todas as situações, por isso o nosso esforço no acompanhamento da obra é assegurar que o projeto original é cumprido, porque ele teve essa preocupação. Quando aparece uma surpresa, perguntamos: qual é o  princípio? São os conceitos do projeto original. E tem acontecido em muitos casos depois de avaliarmos alternativas em surpresas que aparecem: aquele que se demonstra ser o melhor caminho é, afinal, o que já está definido no projeto original. Estou a defender o projeto - se calhar não sou a pessoa mais indicada para o fazer! -, porque existiu essa preocupação: sabendo que se tratava de uma obra complexa, de uma reabilitação de um edifício muito sobreposto de acontecimentos, nós tínhamos que ter um princípio muito claro, de depuração. Essa opção revelou-se agora no decurso da obra como uma metodologia adequada.

Eu diria que as alterações ao projeto original correspondem a uma ou duas situações em que a obra revelou que podia ser melhor que o projeto. Uma delas diz respeito ao arquivo, que estava dimensionado de acordo com as áreas definidas pelo IGFEJ e obviamente definidas em função do volume documental do arquivo do STJ. O volume documental permite-nos calcular a capacidade de depósito das estantes e isso determina a área ocupada. O que nós percebemos foi que, de acordo com a geometria construtiva, havia vantagem em corrigir, regularizando e simplificando o espaço do arquivo. Em vez de ser uma forma recortada passou a ser uma forma retangular simples, uniforme, muito mais adequada. Este acerto ampliou em 30% a capacidade de depósito do arquivo do STJ, o que me parece adequado para uma instituição desta natureza.

Uma outra situação é o espaço de uma galeria, um espaço aberto ao público. Se pensarmos na  Praça do Comércio isto faz todo o sentido, mas, para uma instituição como o Supremo Tribunal de Justiça, esta não era uma situação relevante. No entanto, o próprio STJ foi valorizando esta componente do programa. Podia ter-se um espaço aberto - uma espécie de centro interpretativo - onde os turistas, qualquer pessoa, poderia entrar e ficar a saber o que é o STJ, qual a sua história. Estava prevista a utilização de um pequeno espaço que, algures em meados do século XX, tinha sido alvo de uma subdivisão, feita através da colocação um pavimento intermédio, para dividir o espaço e aproveitar a parte de cima. O projeto já tinha feito referência a essa situação, que veio a ser confirmada em obra: o pavimento intermédio era mais uma das adições invasivas doa estrutura original. O que nós percebemos é que tinha sido posto ‘à força’ e que seria melhor retirá-lo e devolver à galeria a sua espacialidade original que corresponde à altura do porticado da Praça do Comércio, que entra por aqui dentro e que vai ser mais um espaço surpreendente!

Penso que há aqui uma espécie de ‘milagre da multiplicação dos espaços’: sendo a área a mesma, o que acontece é que a nossa perceção do espaço tem agora outra dimensão, a dimensão vertical ampliada. Na situação anterior havia uma compartimentação excessiva, pesada, que tornava o espaço escuro. A nova dimensão, esta nova luminosidade, ampliam o espaço. Sim temos um espaço melhor!